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Educação, Epistemologia da Ciência, Evolução

A Mutação está na essência

Thomas Kuhn, em seu livro A Estrutura das Revoluções Científicas, 1962, argumenta que as grandes mudanças que aconteceram na ciência não ocorreram de forma gradual pelo simples acúmulo de dados, mas devido à mudança de paradigma, do modo como a disciplina como um todo era percebida. Particularmente, tenho certo “pé atrás” com qualquer afirmativa categórica. Não nego a força da mudança de paradigma, mas posso citar algumas descobertas que trouxeram um avanço absurdo à Ciência, principalmente à Biologia, onde não ocorreu essa quebra de paradigma. A descoberta da penicilina e da anestesia, por exemplo, são devidas mais ao descuido e ao acaso que a uma quebra de paradigma e revolucionaram a medicina. O assunto de hoje, por outro lado, é uma dessas descobertas que nos faz encarar todo um ramo do saber de forma diferente.

Thomas Henry Huxley, conhecido atualmente mais como o buldogue de Darwin do que devido as suas contribuições a Biologia, Educação e Profissionalização da Ciência, certa vez comentou que a teoria de Darwin era tão simples que não sabia o porquê dele próprio não havia pensado nela antes! Vou buscar, na medida do possível, responder a indagação do eminente cientista.

A ideia de que os seres vivos evoluem não surgiu com Darwin ou Lamarck, diferentemente do que nos dá a entender os livros didáticos do Ensino Médio, vários outros cientistas consideravam seriamente essa hipótese. A ideia da evolução dos seres vivos não era nova. Observando, contudo, como funcionava a Biologia (ou teologia natural) antes de Darwin temos uma pista do porquê do não florescimento de uma teoria evolutiva convincente: A Biologia pré-darwiniana trabalhava com um paradigma tipológico.

Platão acreditava (e, consequentemente, a civilização ocidental até Darwin) que tudo o que existe no mundo possui uma essência fixa e imutável, um Eidos, e todas as coisas existentes derivariam desse Eidos. Imagine, por exemplo, uma cadeira. Quatro pernas, um encosto, talvez acolchoada… Perceba que na sua mente há uma ideia de como é uma cadeira, mas todas as cadeiras são do modo que você imaginou? Obvio que não, as cadeiras podem ser extremamente diferentes, mas todas as cadeiras que existem, até mesmo essa que você imaginou, possuem certa essência e, portanto, possuem o mesmo Eidos. Do mesmo modo, Platão acreditava que cada espécie possuía uma essência fixa e imutável, as variações encontradas dentro de uma espécie seriam apenas derivações dessa ideia. Sendo assim, a ênfase era dada não nas diferenças individuais dos indivíduos, mas nas características gerais que, segundo acreditava-se eram fixas e imutáveis.

Lamarck, por exemplo, argumentava que as espécies surgiam por geração espontânea e se transformavam paulatinamente em espécies mais evoluídas, havendo uma troca de um tipo para outro mais complexo (transformismo). Para Lamarck a espécie toda mudava em certo momento, trocando um tipo, um eidos, por outro. Não havia a possibilidade de uma população ancestral dar origem a duas derivadas, pois seria impossível cingir esse tipo.

Darwin foi o primeiro a questionar o paradigma tipológico. A ideia de essências fixas e imutáveis fazia cada vez menos sentido quando comparada as observações de Darwin. Como explicar, por esse raciocínio, que duas populações de uma mesma espécie de tartaruga fossem tão diferentes a ponto de, apenas observando sua casca, afirmar de qual população era? Como uma mesma essência poderia formar indivíduos assim tão diferentes apenas por fazerem partes de população diferentes? Para ele essa tal essência não existe, a espécie seria apenas um conjunto de indivíduos que compartilhem um determinado número de características e sejam capazes de cruzar entrei si. Mais importante que a negação do Eidos foi a ressignificação da diferença entre organismos da mesma espécie. Onde antes essas variações eram sem importância, agora se tornava a matéria prima onde atuava a Seleção Natural. Uma seleção somente faz sentido se houver algo a selecionar, mas para essa ênfase na diferença ocorrer teve que ocorrer em sua cabeça essa mudança do paradigma tipológico para um paradigma mutacionista. Mayr (sempre ele) argumenta com muita propriedade que a teoria de Darwin possuía na verdade cinco teorias embutidas, uma delas seria o paradigma mutacionista, a diferença entre os organismos como regra. Sem essa mudança paradigmática fica difícil pensar numa teoria como a de Darwin, talvez por isso Huxley não conseguiu pensar nessa teoria antes de Darwin, pois sua cabeça ainda não possuía a “formatação” necessária.

P.S.: Esse é o primeiro de uma série (três, quatro ou cinco, ainda não me decidi) textos sobre a teoria de Darwin. Já fazia um tempo que queria escrever sobre isso por aqui, mas resolvi esperar atingir as mil visitas.

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Sobre Júlio Camilo

Um cara feliz.

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