Uma das características que mais me irritam em alguns intelectuais e na maioria dos pseudo-intelectuais é sua atração pelo pedantismo. Seu fascínio pelas citações obscuras, discursos grandiloquentes e o prazer por não se fazer entender pelos outros seres humanos, como se quanto mais difícil forem suas palavras, melhor seus argumentos se tornam. Isso parece muito esquisito para mim, que tenho como ofício transmitir o conhecimento, não o cercear entre correntes de hermetismo. (para vocês terem ideia, quase que eu apago esse parágrafo para o reescrever, mas a inspiração não está muito gentil comigo hoje, portanto assim o vou deixar, mesmo o achando deveras pedante).
Para os iniciados na história das ciências não são novidade os casos de cientistas de comportamento “difícil” – é comum encontrar nos textos especializados essa palavra, do jeito que está aqui, entre aspas e em itálico, quando se comenta de alguns cientistas; na verdade o escritor pensou em classificar o tal cientista com palavras bem menos abonadoras e normalmente de baixo calão, mas a ética o impede de substituir “difícil” por bastardo canalha sádico nazista do inferno – os estudantes universitários de quando em vez também se deparam com esses tipos de professores pesquisadores “difíceis”, pessoas arrogantes que tratam o aluno como um tipo contagioso e praticamente ignoram a existência dos outros seres humanos.
Temos muitos exemplos de cientistas “difíceis”. James Watson, o cara que fundou, com seu artigo, todo um novo campo de pesquisa – a Biologia Molecular – foi recentemente repreendido por afirmações racistas, além de ter escrito um singelo livro que carrega como título: Como evitar pessoas chatas. Rosalind Franklin, que conseguiu capturar a fotografia mais nítida do sal de DNA e ainda hoje alguns consideram que ela foi injustiçada por não ter recebido o Nobel junto com Watson, Crick e Wilkinson, segundo relatos era chata, insubordinada (foi contratada para ser técnica no laboratório de Wilkinson, mas não o obedecia e tendia a o ridicularizar por ele não entender muito das difrações de raio-X) e anti-social. A lista é enorma, mas vamos parar por aqui.
O paradoxal, contudo, é que apesar de ser formada por pessoas arrogantes, a ciência tem como seu ponto fundamental a humildade. Poderia usar minhas palavras para explicar o porque a humildade da ciência, mas o mestre Sagan faz isso de forma absurdamente melhor, por tanto vou me dignar a comentar a seguinte citação:
“Algumas pessoas consideram a ciência arrogante – especialmente quando pretende rebater opiniões arraigadas ou introduz conceitos bizarros que parecem contraditórios ao senso comum. Como um terremoto que confunde a nossa confiança no próprio solo que estamos pisando, pode ser profundamente perturbador desafiar as nossas crenças habituais, fazer estremecer as doutrinas em que aprendemos a confiar. Ainda assim, sustento que a ciência é, em essência, humildade. Os cientistas não procuram impõe suas necessidades e desejos à Natureza; ao contrário interrogam-na humildemente e levam a sério o que descobrem. Sabemos que cientistas reverenciados cometeram erros. Compreendemos a imperfeição humana. Insistimos na verificação independente e – na medida do possível – quantitativa dos princípio propostos. Com frequência estimulamos, desafiamos, procuramos contradições ou pequenos erros residuais persistentes, propomos explicações alternativas, encorajamos a heresia. Concedemos nossos prêmios mas valorizados àqueles que convincentemente refutam crenças estabelecidas.”
Carl Sagan
O mundo assobrado por demônios: a ciência como uma vela no escuro
Companhia das letras, pg 46-47
Há prova maior de humildade do que premiar e reverenciar aqueles que nos mostraram que estávamos errados? O maior feito do Einstein foi exatamente mostrar que a mecânica Newtoniana, sobre aspectos especiais, está errada e por isso, e também pela sua personalidade irreverente, provavelmente é a imagem do cientista que vem a cabeça de um leigo.
Muitos criacionistas acusam os cientistas de não aceitarem criticas a teoria da evolução. Crasso erro, já que o reflorescimento dessa teoria se deve exatamente as críticas e posteriores correções que paleontólogos, geneticistas, zoólogos e botânicos fizeram a teoria de Darwin (isso é o que chamamos atualmente de Neo-Darwinismo ou Síntese moderna). Provavelmente o biólogo mais conhecido – e longevo – do século XX, Ernst Mayr, é tão conhecido por ser um dos cientistas que corrigiram os erros de Darwin.
Sagan argumenta que um dos motivos para os sucesso da ciência é que “…a ciência possui um mecanismo de correção de erros em seu próprio âmago.” (idem, pg 41). Esse mecanismo de correção de erros conceituais acaba por também retirar da ciência toda a arrogância existente em alguns de seus cientistas.
Post scriptum: Um jeito fácil de perceber a eficácia do “filtro contra arrogância” é ler o artigo do Watson e Crick (para o ler em português é só clicar AQUI). Quase não dá para imaginar que um artigo tão curto, elegante e singelo pertença a um ser que adora um holofote.



