Sobre a humildade da Ciência e a arrogância dos cientistas

Uma das características que mais me irritam em alguns intelectuais e na maioria dos pseudo-intelectuais é sua atração pelo pedantismo. Seu fascínio pelas citações obscuras, discursos grandiloquentes e o prazer por não se fazer entender pelos outros seres humanos, como se quanto mais difícil forem suas palavras, melhor seus argumentos se tornam. Isso parece muito esquisito para mim, que tenho como ofício transmitir o conhecimento, não o cercear entre correntes de hermetismo. (para vocês terem ideia, quase que eu apago esse parágrafo para o reescrever, mas a inspiração não está muito gentil comigo hoje, portanto assim o vou deixar, mesmo o achando deveras pedante).

Para os iniciados na história das ciências não são novidade os casos de cientistas de comportamento “difícil” – é comum encontrar nos textos especializados essa palavra, do jeito que está aqui, entre aspas e em itálico, quando se comenta de alguns cientistas; na verdade o escritor pensou em classificar o tal cientista com palavras bem menos abonadoras e normalmente de baixo calão, mas a ética o impede de substituir “difícil” por bastardo canalha sádico nazista do inferno – os estudantes universitários de quando em vez também se deparam com esses tipos de professores pesquisadores “difíceis”, pessoas arrogantes que tratam o aluno como um tipo contagioso e praticamente ignoram a existência dos outros seres humanos.

Temos muitos exemplos de cientistas “difíceis”. James Watson, o cara que fundou, com seu artigo, todo um novo campo de pesquisa – a Biologia Molecular – foi recentemente repreendido por afirmações racistas, além de ter escrito um singelo livro que carrega como título: Como evitar pessoas chatas. Rosalind Franklin, que conseguiu capturar a fotografia mais nítida do sal de DNA e ainda hoje alguns consideram que ela foi injustiçada por não ter recebido o Nobel junto com Watson, Crick e Wilkinson, segundo relatos era chata, insubordinada (foi contratada para ser técnica no laboratório de Wilkinson, mas não o obedecia e tendia a o ridicularizar por ele não entender muito das difrações de raio-X) e anti-social. A lista é enorma, mas vamos parar por aqui.

O paradoxal, contudo, é que apesar de ser formada por pessoas arrogantes, a ciência tem como seu ponto fundamental a humildade. Poderia usar minhas palavras para explicar o porque a humildade da ciência, mas o mestre Sagan faz isso de forma absurdamente melhor, por tanto vou me dignar a comentar a seguinte citação:

“Algumas pessoas consideram a ciência arrogante – especialmente quando pretende rebater opiniões arraigadas ou introduz conceitos bizarros que parecem contraditórios ao senso comum. Como um terremoto que confunde a nossa confiança no próprio solo que estamos pisando, pode ser profundamente perturbador desafiar as nossas crenças habituais, fazer estremecer as doutrinas em que aprendemos a confiar. Ainda assim, sustento que a ciência é, em essência, humildade. Os cientistas não procuram impõe suas necessidades e desejos à Natureza; ao contrário interrogam-na humildemente e levam a sério o que descobrem. Sabemos que cientistas reverenciados cometeram erros. Compreendemos a imperfeição humana. Insistimos na verificação independente e – na medida do possível – quantitativa dos princípio propostos. Com frequência estimulamos, desafiamos, procuramos contradições ou pequenos erros residuais persistentes, propomos explicações alternativas, encorajamos a heresia. Concedemos nossos prêmios mas valorizados àqueles que convincentemente refutam crenças estabelecidas.”

Carl Sagan

O mundo assobrado por demônios: a ciência como uma vela no escuro

Companhia das letras, pg 46-47

Há prova maior de humildade do que premiar e reverenciar aqueles que nos mostraram que estávamos errados? O maior feito do Einstein foi exatamente mostrar que a mecânica Newtoniana, sobre aspectos especiais, está errada e por isso, e também pela sua personalidade irreverente, provavelmente é a imagem do cientista que vem a cabeça de um leigo.

Muitos criacionistas acusam os cientistas de não aceitarem criticas a teoria da evolução. Crasso erro, já que o reflorescimento dessa teoria se deve exatamente as críticas e posteriores correções que paleontólogos, geneticistas, zoólogos e botânicos fizeram a teoria de Darwin (isso é o que chamamos atualmente de Neo-Darwinismo ou Síntese moderna). Provavelmente o biólogo mais conhecido – e longevo – do século XX, Ernst Mayr, é tão conhecido por ser um dos cientistas que corrigiram os erros de Darwin.

Sagan argumenta que um dos motivos para os sucesso da ciência é que “…a ciência possui um mecanismo de correção de erros em seu próprio âmago.” (idem, pg 41). Esse mecanismo de correção de erros conceituais acaba por também retirar da ciência toda a arrogância existente em alguns de seus cientistas.

Post scriptum: Um jeito fácil de perceber a eficácia do “filtro contra arrogância” é ler o artigo do Watson e Crick (para o ler em português é só clicar AQUI). Quase não dá para imaginar que um artigo tão curto, elegante e singelo pertença a um ser que adora um holofote.


Existe uma explicação muito mais simples

Uma das coisas que normalmente tiram do sério os professores é quando o aluno responde a uma pergunta com: “É porque Deus quis!”, não pela piada em si (que, aliás, é sem graça e antiga), mas porque normalmente ‘quebra’ o raciocínio do professor. O que assim responde crê que essa é a resposta mais simples (ou ao menos a mais engraçada), pois pode ser aplicada a virtualmente tudo, mas não percebe, contudo que a resposta mais simples possui a explicação mais complexa.

“Mas como é que a resposta mais simples possui a explicação mais complexa. Isso é um verdadeiro oximoro!”. Vamos trabalhar com um exemplo simples para tentar entender melhor.

Observe a tirinha abaixo

Agora vamos analisar as duas respostas.

Resposta 01:

“As massas tendem a se atrair, só que como a massa da Terra é muito maior que a massa do charuto, o único movimento perceptível é do charuto indo em direção à Terra”

O que temos que admitir para considerar essa resposta como certa: que exista massa e que exista a propriedade de atração mútua entre corpos com massa. Nada muito complicado, a massa existe e é facilmente mensurável em uma balança. A atração mútua entre corpos com massa explica, por exemplo, a atração entre a lua e o oceano que causa os fenômenos de maré cheia e maré rasa.

Resposta 02:

“Porque Deus quis!”

O que temos admitir para considerar essa resposta como certa: Primeiro, que exista um (ou vários) Deus (Deuses). O que é complicado, já que não há método de mensurar a existência ou não de uma divindade. Caso existam vários Deuses, todos, ou ao menos a maioria, tem que querer que aconteça determinado ato. Talvez haja, sei lá, um esquema de votação ou algo parecido… Supondo, contudo, que exista apenas um Deus e que ele realmente queira que um determinado fato ocorra, ainda temos alguns problemas. Como você vai saber que ele realmente quis aquilo. Teríamos que prever que você converse com ele ou que seja capaz de entrar na mente de um ser onipotente e sondar seus pensamentos celestiais… Quantas suposições, não. E não acabou. Suponhamos que Deus quis e você saiba que Deus quis, como foi que Deus fez aquilo ocorrer? Deus fica vistoriando todo mundo e percebe, por exemplo, o momento em que aquela velhinha tropeça para a fazer cair? Isso não iria de encontro à misericórdia divina… Poderia continuar, mas creio já ter me feito entendido.

A Ciência, por mais que os alunos não acreditem, procura sempre a explicação mais simples, mais parcimoniosa, com o menor número de passos possíveis. Sua simplicidade é o que torna a Ciência tão elegante.

Julgamentos, teorias e dois neurônios fumegantes

“O Português é difícil mesmo. É só vê o exemplo da manga para entender: tem manga fruta, manga de camisa manga de mangar…”. Assim minha saudosa vó saia enumerando as várias acepções da palavra manga quando um de nós (filhos e netos) comentava que achávamos difícil á Língua Portuguesa. Apesar de não ser apenas no Português que acontece essa multiplicidade de significados para apenas um significante, a constatação de minha vó serve de advertência para o cuidado em especificar em qual acepção aquela palavra é usada.

Duas palavras que causam particular cefaleia em ciências são: preciso e teoria.

Precisar possui dois significados bem distintos. Na sua acepção primeira (a que normalmente usamos em Ciências – lembre-se dos equipamentos de precisão, por exemplo), precisão é sinônimo de exatidão. Na que mais corriqueiramente usamos, é equivalente a necessário. Quando Pessoa versava que “Navegar é preciso, viver não é preciso.” É claro o sentido de preciso como exato. Até porque para se navegar, deve-se estar vivo e, dado que Pessoa não poetizava sobre zumbis e embarcações fantasmas, o preciso ali empregado nem de longe pode ser pensado como sinônimo de necessário.

Teoria já nos causa maior desconforto. “Mamãe, porque a Clotilde está usando esse lenço róseo na cabeça?”. “Não sei filho, minha teoria é de ela mandou cortar o cabelo e não gostou nada do resultado!”. Nesse caso teoria é sinônimo de hipótese, ideia de explicação de algo sem comprovação. Nesse texto e muito provavelmente em todos os outros do blog essa palavra não será utilizada nessa acepção.

Em ciências, teoria é a forma mais elegante e com menos passos possíveis de se explicar o maior conjunto possível de fatos observados. Se uma moeda escapa de minha mão cai no chão, objetos descem por um plano inclinado, a Terra e a Lua se atraem mutuamente; fatos tão diferentes são agrupados pela teoria da gravitação universal. Entenda que toda teoria surge de uma hipótese, que pode ou não ser corroborada pelos dados existentes.

Por que colocar Deus de fora dessa conversa

Um fato que acaba irritando algumas pessoas – normalmente as mais fundamentalistas – é que os cientistas ‘ignoram’ deus em suas ideias. Acusam todos os cientistas de ateus (como se ser ateu fosse algo criminalmente condenável) e exclamam sua ojeriza a esse tipo de cientistas. Mas, independente de crença – ou de sua falta – os cientistas tem que deixar deus longe dos assuntos científicos para evitar o aumento no número de passos para explicar um conjunto de dados. Caso afirmasse que uma moeda escapa de minha mão cai no chão, objetos descem por um plano inclinado, a Terra e a Lua se atraem mutuamente porque deus quis teria alguns problemas. 01. Provar a existência de deus; 02. Perscrutar o raciocínio de deus; 03. Buscar a intencionalidade em seu ato. Três tarefas impossíveis para a Ciências e, ao menos o segundo ponto, impossível para as religiões (tanto é que normalmente se diz, quando não se entende o porque de algo acontecer, que Deus escreve certo por linhas tortas). Para explicar esses fenômenos pela teoria da gravitação universal é necessário apenas: 01. Provar que todos esses objetos têm massa; 02. Provar a atração entre as massas. Apenas dois passos e ambos passíveis de teste. Alguns até argumentam que Deus criou as regularidades do mundo físico e tornou possível a ocorrência desses fatos, mas note que teríamos 05 passos (os três primeiros mais os dois acima) no lugar de dois.

Teorias não justificam comportamentos

Outro erro frequente é querer justificar certo comportamento com uma teoria. Podemos, no máximo, explicar comportamentos com uma teoria, mas não o justificar.

Alguns estudos apontam que a monogamia é uma invenção relativamente recente na humanidade. Por tal motivo alguns indivíduos se sentem propensos ao adultério. Isso explica o comportamento, mas pode ter certeza que mesmo que sua esposa seja cientista ela não vai entender se te pegar na cama com outra mulher (a não ser, é claro, que haja anuência dela). Do mesmo modo um juiz não libertará um assassino confesso apenas por ele demostrar que impulsos assassinos são comuns. A teoria explica o comportamento, nos faz entender porque acontece, não justifica o ato.

Teorias não devem servir de base para discriminação

“Cara, você é tão gordo que quando o ketchup cai do cachorro-quente não suja sua camisa, fica orbitando ao seu redor.”; “Sua mãe é tão gorda que a bunda dela foi contratada para cobrir as férias da lua.”; “Um objeto em movimento tende a permanecer em movimento e quanto maior a massa, maior essa tendência: e foi assim que meu tio justificou sua barriga tremer por três dias seguidos após o tombo que sofreu.”; “Se a lei da inércia estiver mesmo certa, o cérebro do Joaquim nunca se moveu na vida.”… Várias formas de discriminação com base em uma teoria científica.  A teoria não tem como objetivo discriminar um ou alguns grupos de seres humanos, ela tenta apenas condensar o maior número possível de fatos em uma explicação comum.

Uma última observação

Percebam que fiz questão de não usar exemplos relacionados à Teoria da Evolução, apesar dela ser bem mais farta para analisar todos esses pontos que discorri. Temos vários exemplos de mau uso dessa teoria (Os estudos biométricos de Francis Galton, Darwinismo Social et caetera) seja justificando comportamentos imorais ou discriminando determinados grupos. A ideia do post veio quando assisti o filme In time (O preço do amanhã) que se utiliza de uma visão distorcida do Darwinismo para justificar a distopia apresentada na película. Uma das ideias finais desse post, além das já expostas, é que não importa muito a teoria analisada, sempre há um modo de distorcê-la, pois apesar das teorias serem aéticas e amorais possuem muitas implicações no mundo que vivemos e sempre podem ser distorcidas por pessoas anti-ética e imorais somente para privilegiar seus interesses.

Artigo traduzido: Resumo de uma carta de Charles Robert Darwin ao professor Asa Gray, Boston, Estados Unidos, 5 de setembro de 1857.

Prolegômeno

O artigo traduzido de hoje é na verdade uma carta, ou melhor, o resumo de uma carta privada que saiu da Inglaterra para os Estados Unidos com o intuito de explicar para um botânico a ideia de um naturalista (nunca essa definição pareceu tão apropriada, já que esse indivíduo não se contentava em investigar apenas um ramo do saber). Não era intuito do naturalista que essa carta viesse a público, mas tudo mudou quando esse cavalheiro inglês recebeu ele próprio uma carta de um conterrâneo enfurnado na Ásia que trazia traçada ideias muito próximas das deles e, pior, pedia que o cavalheiro entregasse a carta para publicação.

O honrado cavalheiro britânico se viu em uma dúvida: aquelas ideias o atormentavam há tempos e também há tempos ele as burilava esperando o momento certo de as publicar, por outro lado o jovem cientista havia lhe confiado uma missão e ele não se sentiria correto se não publicasse sua carta. O imbróglio foi resolvido quando decidiu-se que a carta que o naturalista recebeu seria levada a conhecimento juntamente com um capítulo incompleto de um futuro livro seu e o resumo de sua carta enviada anos antes para o amigo americano.

Para quem conhece um pouco de evolução (ou leu o título do blog todo) já percebeu que o naturalista é Charles R. Darwin e o cientista que estava na Ásia, mais precisamente no arquipélago malaio, é Alfred Russel Wallace. O que pouca gente sabe é a teoria contida nessas cartas e nesse esboço de capítulo foram recebidos com certa frieza, o que mudou apenas no ano seguinte (1859) quando Darwin publicou o livro que quebrou vários paradigmas vigentes na Biologia: A origem das espécies.

A carta de Darwin para Gray era, como o próprio Darwin reconhece ao seu fim, incompleta, mas já possuía as ideias que tornou seu livro tão incendiário. Desde já desculpem-me os acidentais erros de tradução, mas traduzir as cartas de Darwin não é lá um trabalho muito fácil.

 

Resumo de uma carta de Charles Robert Darwin ao professor Asa Gray, Boston, Estados Unidos, 5 de setembro de 1857.

1. É maravilhoso que o princípio da seleção pelo homem, ou seja, a escolha de indivíduos com qualquer qualidade desejada e cruzamento entre eles, e o procedimento de uma nova escolha, pode fazer. Os próprios criadores são surpreendidos com os resultados obtidos. Eles podem modificar diferenças imperceptíveis a um olho não treinado. A seleção [pelo homem] foi realizada metodicamente na Europa somente no último meio século; mas ocorreu ocasionalmente e com certo grau de método, desde os tempos mais antigos. Muito provavelmente ocorreu um tipo de seleção inconsciente desde períodos remotos, ou seja, a preservação de alguns indivíduos (sem qualquer pensamento em sua prole) mais úteis para cada população humana em seus ambientes peculiares. O “roguing” [não há uma palavra que traduza esse termo, mas a explicação vem logo em seguida], que é como viveiristas denominam a destruição de variedades [vegetais] que destoam de um tipo particular, é um tipo de seleção. Estou convencido de que seleção intencional e ocasional é o principal agente na produção de nossas raças domésticas; mas, no entanto, se isso é possível, é devido ao grande poder de modificação já indiscutivelmente demostrado nos últimos tempos. A seleção atua simplesmente pelo acúmulo de grandes e pequenas variações, causado por condições externas ou pelo simples fato de que a geração filial não é absolutamente semelhante a parental. O homem, utilizando este poder de acumular essas variações, adapta os seres vivos aos seus desejos – seja para fazer com que a lã de um ovelha seja boa para tapetes, a de outra para pano, &c [grafia arcaica de etc – et caetera – que nada mais signifique que: e outras coisas].

2. Agora vamos supor que haja um ser que não julga apenas pela aparência externa, mas que estuda toda a organização interna [do indivíduo], nunca é caprichoso [não cede a idiossincrasias] e deve selecionar [o indivíduo] para um objetivo durante milhões de gerações; quem vai dizer que ele não conseguiria resultados [satisfatórios]? Na natureza há sempre algum tipo de variação ocorrendo; e eu acho que pode ser demostrado que mudanças nas condições de existência são a principal razão dos filhos não serem exatamente parecidos com seus pais; e a Geologia nos mostra que mudanças aconteceram e continuam a ocorrer. Temos um tempo quase ilimitado; fato que apenas um experimentado geólogo pode apreciar inteiramente.  Acho que na era Glacial, período onde ao menos todas as espécies portadoras de concha já existiram, passou-se milhões e milhões de gerações.

3. Eu acho que pode ser demostrado que existe um poder assim tão infalível no trabalho na seleção Natural (o título do meu livro), que seleciona exclusivamente para o bem de cada ser orgânico. O velho De Candolle, Herbert w. e Lyell escreveram excelentemente sobre a luta pela sobrevivência; mas mesmo que eles não foram enfáticos o suficiente. Reflita que cada ser (mesmo o elefante) cruza a um ritmo tal, que em poucos anos, ou no máximo alguns séculos, a superfície da terra não seria suficiente para os descendentes de um par. Eu achei difícil manter em minha mente que todo aumento em todo indivíduo é selecionado durante alguma parte da sua vida, ou brevemente durante as gerações. Apenas alguns dos nascidos anualmente podem viver para propagar sua descendência. Uma diferença insignificante deve frequentemente determinar os que sobrevivem e os que perecem!

4. Agora imagine que alguma região sofra alguma alteração. Isso tende a fazer com que alguns de seus habitantes variem um pouco — acredito que a maioria dos seres vivos varia tempo suficiente para que a seleção atue sobre eles. Alguns de seus habitantes morrerão; e o restante será exposto à vários tipos de interação entre eles, o que me parece para ser muito mais importante para a vida de cada ser do que a mera [mudança no] clima. Considerando os infinitamente diversos métodos que seres vivos possuam para obter alimento, lutar com outros organismos, escapar do perigo em vários momentos da vida, ter seus ovos ou sementes difundidas, & c. & c., não duvido que durante milhões de gerações de uma espécie ocasionalmente nascerá um individuo com alguma pequena variação, rentável [vantajosa] para alguma parte de sua economia. Tais indivíduos terão uma maior chance de sobreviver e de propagar sua estrutura nova e ligeiramente diferente; e a modificação pode ser aumentada lentamente pela ação cumulativa da seleção natural em qualquer extensão mais vantajosa. A variedade assim formada coexistirá com, ou, mais comumente, exterminará as formas parentais. Um ser orgânico, como o Pica-pau ou azevinho, pode ser adaptado a uma quantidade de contingências — com a seleção natural acumulando as pequenas variações em todas as partes de sua estrutura, que são de alguma forma útil para ele durante alguma época da sua vida.

5. Várias dificuldades se apresentarão para cada uma [das hipóteses] desta teoria. Muitas podem, penso eu, ser satisfatoriamente respondidas. Natura non facit saltum [a natureza não anda por saltos] responde a algumas das mais óbvias [objeções]. A lentidão da mudança e apenas poucos indivíduos sofrerem alteração a qualquer momento, responde a outras. A extrema imperfeição de nossos registros geológicos responde a outras.

6. Outro princípio, que pode ser chamado de princípio da divergência, atua, penso eu, em uma parte importante na origem das espécies. O mesmo lugar suportará mais indivíduos se ocupado por formas [de vida] bem diversas. Vemos isso, em linhas gerais, em um pedaço de relvado ou em plantas ou insetos em qualquer pequeno ilhéu uniforme, quase invariavelmente pertencente a tantos gêneros e famílias como espécies. Podemos entender o significado desse fato entre os animais superiores, cujos hábitos compreendemos. Demostrou-se experimentalmente que uma parcela de terreno produzirá um maior peso se semeadas com várias espécies e gêneros de gramíneas, no lugar de ser semeadas com apenas duas ou três espécies. Agora, cada ser orgânico, propagando-se tão rapidamente, pode-se dizer ele fará tudo que estiver ao seu alcance para aumentar em número. Assim é com a prole de qualquer espécie após se diversificar em variedades, ou subespécies ou espécies verdadeiros. E segue-se, penso eu, apoiado pelos fatos precedentes, que a variada descendência de cada espécie vai tentar (apenas poucos serão bem-sucedida) preencher os tantos e diversos lugares na economia da natureza quanto possível. Cada nova variedade ou espécies, quando formada, geralmente tomará o lugar de, e, assim, exterminará a geração parental, que é pior adaptada. Assim eu acredito ser a origem das classificações e afinidades dos seres orgânicos ao longo do tempo; pois os seres orgânicos sempre parecem ramo e sub-ramo, como os membros de uma árvore de um tronco comum, os galhos florescentes e divergentes destruindo os [galhos] menos vigorosos – os galhos mortos e ramos perdidos rudemente representam gêneros e famílias extintas.

Este esboço está muito imperfeito; masé o melhor que posso fazer em um espaço tão curto. Sua imaginação deve preencher as várias lacunas.

C. DARWIN.     

 

Os procedimentos não são universais? (ou por qual motivo uma equação simples como a de Hardy-Weinberg parece tão complicada)

Em outro post (nossa, como se houvesse assim, sei lá, uns 200 posts no blog…) comentei sobre os diversos tipos de conteúdo. O grande intuito do post era, obviamente, explicar os tipos de conteúdos “É nada, Mr. Óbvio”, mas também estava preparando terreno para algumas questões ulteriores. Uma dessas questões dá título (horrível, por sinal) a esse post.

Para quem não lembra ou não leu o outro post, os conteúdos podem ser divididos em três tipos: conceitos, procedimentos e atitudes. Conceitos são bem específicos de uma disciplina e normalmente ou se tem ou não se tem. Procedimentos se encarregam de permitir usar (por usar entenda interligar, aplicar, gerenciar…) esses conceitos e há vários graus de desenvolvimento desse tipo de conteúdo. Atitudes tratam promover valores e comportamentos. Para ficar mais claro: saber as leis de trânsito é um conceito, dirigir é um procedimento, ser um motorista consciente é uma atitude.

Devido aos conceitos possuírem essa característica mais estanque e as atitudes não serem, infelizmente, tão valorizadas no ensino. Algumas propostas de ensino vaticinam que os professores deveriam se ater principalmente aos procedimentos, e em particular ao raciocínio lógico-matemático e interpretação de texto, procedimentos necessários à todas as disciplinas. O que se percebeu, contudo, é que não obrigatoriamente um procedimento adquirido em uma área do conhecimento será transposto para outras áreas. Pretendo exemplificar isso utilizando o equilíbrio de Hardy-Weinberg, mas para tanto necessito fazer uma pequena digressão. Você permite?

A Genética é uma disciplina relativamente recente. Sua base fundadora, os trabalhos de Mendel (que, curiosidade, tinha como primeiro nome Johann. Gregor foi adotado após ele entrar no mosteiro em homenagem a São Gregório), somente foram “redescobertos” em 1900.

Um dos pontos que causava discussão entre os primeiros geneticistas era a permanência ou não dos alelos recessivos em uma população.

Alguns geneticistas afirmavam que os alelos recessivos sumiriam gradativamente de uma população simplesmente por que eram recessivos, independente de serem vantajosos ou desvantajosos. Eles se apoiavam em um fato bem conhecido: quando um indivíduo de fenótipo recessivo imigra ou surge em uma população, sua descendência normalmente possui fenótipo do tipo dominante. Portanto, afirmavam, a tendência era o sumiço do tal alelo recessivo.

Em 1908 um matemático chamado Godfrey Harold Hardy resolveu “meter o bedelho” nesse vespeiro a pedido de um amigo biólogo e demonstrou que o alelo recessivo não some somente por ser recessivo. O cálculo em si é tão simples que dizem que o Hardy ficava envergonhado de ser vinculado a essa teoria. Vamos a ele.

Para que esse equilíbrio existisse eram necessárias algumas premissas:

  • O gene em questão não podia ser fonte de seleção naquele momento (os dois alelos deviam ter o mesmo valor adaptativo)
  • Ninguém entra, ninguém sai. A população tinha que estar isolada.
  • A população deve ser infinitamente grande. A torcida do Ferroviário ou os biólogos milionários, por exemplo, estão fora de cogitação.
  • Os cruzamentos devem ser ao acaso. Sim, como diria meu ex-professor de literatura e membro da Academia Cearense de Letras, Carlos Augusto Viana, em sua verve poética peculiar, todo mundo tem que ter a chance de ‘merendar’ todo mundo do sexo oposto.

Tudo isso acontecendo, o que é bem improvável, acontece o equilíbrio. “Ok, mas e o cálculo?” O cálculo é ainda mais simples.

Eu tenho dois alelos que chamarei de maribondo e joaninha (A e a é muito batido e, de todo modo, é apenas uma convenção). E eles são os únicos alelos que existem para aquele gene, ou seja, ou se tem maribondo ou se tem joaninha – a não ser que o gene seja deletado, o que não consideraremos agora.

Se há apenas maribondos e joaninhas, responda-me uma pergunta difícil: qual a frequência de alelos maribondo e joaninha (sim, dos dois juntos). Se você respondeu qualquer coisa que não seja 100% ou 1, parabéns, você errou. Perceba que 1 e 100% são a mesmíssima coisa. O %, significa dividido por 100. 100 dividido por 100 é…

Transformando isso em equação:

frequência maribondo + frequência joaninha = 1

ou, para reduzir

f(maribondo) + f(joaninha) = 1

 

Só que o velho Hardy sabia que os organismos (a maioria dos animais, pelo menos) possuem dois alelos. Então o que ele fez: elevou os dois lados da equação a 2ª potência. Lembre que toda mudança que ocorre de um lado da equação, tem que ocorrer do outro. Imagine que a equação é uma balança de pratos, a balança está em equilíbrio e você adiciona 5 quilos em um prato, para reestabelecer o equilíbrio você tem que por 5 quilos no outro prato.

(f(maribondo) + f(joaninha))2 = 12

E usou uma propriedade matemática que a gente aprende no ensino fundamental (distributiva)

(f(maribondo) + f(joaninha)) . (f(maribondo) + f(joaninha)) = 12

(f(maribondo))2 + 2 (f(maribondo)) . ( f(joaninha)) + (f(joaninha))2 = 1

Para simplificar, nomeamos f(maribondo) de p e f(joaninha)) de q (e antes que me esqueça, 1 elevado a qualquer número é 1). Fazendo as devidas trocas, temos a equação que a maioria aqui conhece:

p² + 2pq + q² = 1

“Ok, e o que isso tem a ver com os procedimentos?” Vamos lá. Não sei se perceberam que a todo o momento eu queria deixar claro o quão simples era a ideia e a equação de Hardy-Weinberg e que não era necessário ser, assim como Hardy, um gênio da matemática para entender essa equação e até mesmo para a desenvolver. Só para refrescar a memória de vocês: “O cálculo em si é tão simples que dizem que o Hardy ficava envergonhado de ser vinculado a essa teoria.”; “usou uma propriedade matemática que a gente aprende no ensino fundamental (distributiva)” e “O cálculo é ainda mais simples.”. Apesar de tudo isso, a questão do sumiço ou não do alelo recessivo demorou 8 ANOS para ser respondida! Além disso, essa equação causa arrepios em alguns alunos do Ensino Médio e Superior, sendo que a matemática nela contida é elementar! Supõe-se que esses estudantes possuam a capacidade procedimental para realizar essa equação, mas não conseguem transpor de uma disciplina (matemática) para outra (biologia). Por isso é tão importante exercitar os procedimentos em todas as disciplinas, não de forma avulsa. O equilíbrio de Hardy-Weinberg é apenas um de vários exemplos da não transposição dos procedimentos (outro claro exemplo é: um biólogo sempre compreenderá melhor um texto de biologia que um bacharel em letras). Portanto, não, os procedimentos NÃO são universais.

Post de outros blogs: biologiaevolutiva.wordpress.com

Prolegômeno

Além de produzir meus próprios posts e traduzir artigos científicos, trarei de quando em vez post de outros blogs (com o devido crédito e permissão, é claro) que eu ache relevante. O post de hoje foi retirado do blog de um ex-professor, contínuo mestre e bom amigo Gerardo Furtado. Quando fiz dezessete anos (já faz mais tempo do que gostaria, é verdade) ele – meu professor de Genética à época – me deu um livro maravilhoso: O mundo assombrado pelos demônios, a Ciência como uma vela no escuro. Fiquei fascinado com o livro e o emprestei a vários colegas (por mais ciumento que seja, esse tipo de livro deve ser lido pelo maior número possível de pessoas). Alguns anos depois, eis que ele surge escrevendo um blog espetacular (foi considerado um dos dez melhores blog de biologia do Brasil pelo Infoenem) e me fornecendo novamente um texto que alia rigor científico e leitura agradabilíssima. Por tal motivo, é óbvio e justo que comece essa seção do blog com um texto do mestre Gerardo.

“Você não irá evoluir. Nunca!

Na postagem anterior, sobre a unidade Haldane, havia dito que muitos dos artigos desse weblog referem-se a temas que não quis ou não pude tratar em meu livro sobre biologia evolutiva. A presente nota é um caso precisamente oposto: discuti-a bastante em meu livro; contudo, como a internet possui uma visibilidade e um alcance bem maiores, gostaria de discutir esse tema aqui também.

O título desta breve nota não é uma ironia, nem faz par com outra postagem, onde eu afirmo que não acredito em evolução. Mais uma vez, o que eu quero defender é exatamente o que está escrito. Para explicar-me melhor, convém voltar a definir o que entendemos por evolução. Quem leu a postagem sobre a unidade Haldane lembrar-se-á que esta definição de evolução não é uma definição propriamente adequada para todas as situações possíveis, nem pretende ser a definição final e acabada de evolução (sendo, antes disso, umaworking definition). Apesar disso, é a definição mais amplamente usada nos livros-texto de biologia evolutiva:

  • Evolução é a mudança, ao longo do tempo, nas proporções de entidades biológicas, diferindo geneticamente umas das outras.

O ponto importante a se destacar, aceitando como verdadeira e adequada a definição acima, é que o processo evolutivo é uma propriedade populacional, e não individual. No processo evolutivo, entidades vão se substituindo no decorrer das gerações, sendo que a proporção dos diferentes tipos de entidades se altera com o passar dessas gerações. A evolução é um atributo populacional porque depende necessariamente da composição de uma população dada, ou seja, da determinação dos elementos que constituem aquela população.

Você, como indivíduo, não pode evoluir. Tente analisar o enunciado “o indivíduo evolui” sob a luz da definição prévia de evolução e você verá que esse enunciado é totalmente destituído de sentido. O fato de você estudar, tentar progredir no mercado de trabalho, ser um bom marido ou uma boa mulher, começar a fazer terapia, cuidar bem de seus filhos, passar de um motorista violento para um com uma direção defensiva, tudo isso pode ser chamado de melhora, de aperfeiçoamento, de progresso individual, mas não de evolução. Evolução é outra coisa. Se, por exemplo, chamarmos de A os indivíduos que se preocupam com o ambiente e B os que o degradam, e supusermos que essa diferença tem bases genéticas, evolução seria um aumento, ao longo das gerações, da freqüência de indivíduos A (perceba que a redução ao longo do tempo da freqüência de indivíduos A também seria evolução…).

No esquema "a", a composição da população muda; já no esquema "b", um indivíduo metamorfoseia-se ao longo do tempo. No esquema "a" há evolução; em "b" não há.

A única forma válida de afirmar que um ser humano pode evoluir é tentar entender o ser humano como uma população, e seus constituintes, suas células por exemplo, como as entidades biológicas dessa população. Isso é exatamente o que se dá no câncer, e muitos oncologistas explicam didaticamente os cânceres como processos microevolutivos. Vamos dar um exemplo exageradamente simples, apenas para maior clareza: suponha que suas células são entidades do tipo A, até que surge uma célula neoplásica, que chamaremos de entidade do tipo B. Essa célula neoplásica reproduz-se mais rápido que as normais, e dessa forma as proporções de entidades do tipo A e do tipo B mudam ao longo do tempo nessa população (que é o corpo humano). Esse seria um exemplo de um ser humano evoluindo. Para quem já passou por isso, e eu perdi na semana do Natal uma criatura que eu amava muito por causa de um câncer no fígado, sabe que estamos falando de uma evolução nem um pouco interessante…Alguns talvez falem das mutações, argumentando que alterações no material genético de um indivíduo podem constituir evolução. A coisa aqui é um pouco mais complicada, mas também pode ser explicada. Suponha uma população onde todos possuem a variante alélica A1 de um determinado gene. Se um filhote sofre uma mutação logo no início de seu desenvolvimento em que a variante A1 torna-se A2, e se essa mutação altera de tal forma as características do filhote que equivale a esse filhote já ter nascido de um gameta com o alelo A2, o que teríamos é uma alteração nas proporções de entidades biológicas na população; a população evolui, e não o indivíduo. Além disso, é bom lembrar que mutações são extremamente comuns. Segundo Alberts, em seu Molecular Biology of the Cell, cerca de 1016 divisões celulares ocorrem ao longo da vida de um ser humano; mesmo num ambiente com poucos mutagênicos, o número normal de mutações espontâneas é em torno de 10-6mutações por gene por divisão. Multiplicando os dois números, vemos que cada gene de um ser humano sofre em torno de 1010 diferentes mutações ao longo da vida desse homem. Isso, contudo, não muda as proporções de entidades biológicas duma população, apesar de sua importância para a formação das gerações seguintes (particularmente se essas mutações se derem na linhagem germinativa).

Quando um astrofísico fala da evolução de uma estrela (desde o berçário estelar passando pelo nascimento, maturidade, gigante vermelha até a anã branca…), quando um geólogo fala da evolução do relevo, ou quando um médico fala da evolução de um nemátodo, eles não estão usando o termoevolução no mesmo sentido que nós usamos na biologia evolutiva. Evolução, nesses casos que acabei de citar, significa desenvolvimento (ou seja, ontogênese, as diferentes fases na formação de uma determinada entidade). Vale a pena lembrar que os primeiros usos do termo evolução em um contexto biológico, como por Charles Bonnet em fins do século XVIII, referiam-se ao desenvolvimento ontogenético principalmente.

Evolução biológica, por outro lado, é um atributo populacional. É por essa razão que você não irá evoluir.”

Todas as disciplinas são conteudistas

Quando ainda era professor de Ciências do ensino fundamental me incomodava muito quando, na reunião dos pais com os professores, apareciam afirmações do tipo “meu filho não aprende matérias ‘conteudistas’. Ele não é muito bom em decorar.”.

Meu aborrecimento com essas afirmações têm várias razões (e não, nunca que eu me aborreceria com os pais dos alunos por se preocuparem com o aprendizado dos seus filhos). O aborrecimento vem da miríade de concepções errôneas ligadas a esse tipo de afirmação, que os pais, por desinformação, repetiam. Nesse pequeno artigo, pretendo desfazer uma delas.

Parece anastomosado no inconsciente coletivo a ideia de que existem disciplinas ‘conteudistas’ e ‘não conteudistas’. Onde estas são normalmente envolvem cálculos e aquelas necessitam do aprendizado de fatos e nomes. Ledo engano. Matemática, Biologia, Geografia, Educação Física, Inglês, Química, Sociologia… todas essas disciplinas possuem conteúdo. E de diferentes tipos, na verdade. Toda e qualquer disciplina é constituída por conteúdos conceituais, procedimentais e atitudinais. Portanto, por essa ótica, todas elas são ‘conteudistas’.

CONTEÚDOS CONCEITUAIS

Os conteúdos conceituais tratam dos conceitos, fatos, teorias que compõem uma disciplina. É esse tipo de conteúdo que os professores normalmente mais se preocupam em ensinar (perceba que estou generalizando, isso varia muito de professor para professor, de escola para escola e de disciplina para disciplina. Na maioria das escolas – principalmente as ditas tradicionais -, contudo, a orientação é que haja um maior enfoque nesse tipo de em particular). Esse também é o conteúdo mais facilmente identificado como pertencente a uma disciplina.

Compreender o conjunto de regras que formam o jogo de carimba, conhecer os componentes das células, saber quais números pertencem ao conjunto dos números inteiros positivos ou saber conjugar o verbo to be são todos conteúdos conceituais. Note que toda disciplina, seja as tradicionalmente consideradas ‘conteudistas’ ou ‘não conteudistas’ possuem esse tipo de conteúdo.

Acontece que, infelizmente, alguns professores de algumas dessas matérias (Ciências, História, Geografia) se focam muito nesse tipo de conteúdo, principalmente na parte mais factual. O que transforma o aprendizado num simples jogo mnemônico. Mesmo dentro dos conceitos o factual deve ser subordinado a uma teoria que explique e agrupe vários fatos diferentes. Esse foco no factual acontece muito, por exemplo, no estudo da Zoologia e Botânica. Há uma demasiada preocupação em identificar todas as minúsculas partes de um organismo de um filo qualquer, sem, contudo, se preocupar com sua semelhança com um indivíduo de outro filo e se essas similaridades são devido ao parentesco, ao enfrentamento de pressões seletivas semelhantes ou simplesmente ao acaso.

CONTEÚDOS PROCEDIMENTAIS

Os conteúdos procedimentais se ocupam dos procedimentos necessários para utilizar os conceitos. De nada adianta saber conjugar o verbo to be se não soubermos aplicá-lo corretamente em uma frase ou saber as regras da carimba se não soubermos nos desviar das bolas; o estudo do procedimento também é responsável por percebermos que o conjunto dos números inteiros positivos é igual ao dos números naturais maiores que zero ou relacionar os componentes das células animais com as células vegetais e perceber suas semelhanças e diferenças.

Esse tipo de conteúdo pode tanto estar ligado exclusivamente a um tipo de conceito (relacionar os componentes das células animais com as células vegetais e perceber suas semelhanças e diferenças está ligado quase que exclusivamente ao conteúdo conceitual conhecer os componentes das células) como servir a dois ou mais tipos de conceitos, sendo eles da mesma disciplina ou não (leitura e interpretação de texto é um procedimento ligado a todas as disciplinas; resolução de equações de 1º e 2º grau é um procedimento necessário em Matemática, Física, Química e Biologia – no equilíbrio de Hardly-Weinberg, por exemplo).

 

CONTEÚDOS ATITUDINAIS

Os conteúdos atitudinais se ocupam do desenvolvimento de valores, comportamentos e atitudes corretas e desejadas nos alunos e infelizmente são os que recebem menor atenção no ensino. Fato esse paradoxal (como assinala Pozo e Gomes Crespo em seu livro A aprendizagem e o ensino em Ciências: do conhecimento cotidiano ao conhecimento científico), visto que os professores, modo geral, reclamam muito mais das atitudes dos alunos em sala de aula do que da sua incapacidade de compreender as características das células.

As atitudes estão, de certo modo, ligado a todos os outros conteúdos, mas de uma maneira difusa. Sem uma ligação obrigatória. Tanto o professor de Ciências quando ensina ecologia quanto o de História quando aborda a vida dos Egípcios tem que tomar conscientemente atitudes que visem à preservação do meio ambiente, como utilizar a menor quantidade possível de folhas. As atitudes não devem ser apenas verbalizadas, devem ser adotadas pelos professores para que sejam aprendidas por imitação e, sobretudo, deve haver uma coerência de atitudes adotadas entre os professores e a escola. Para não parecer que determinada atitude deve ser tomada em uma aula e não em outra. De nada adianta os alunos terem aulas específicas de Formação humana, Civilidade (ou seja lá o nome adotado pela escola) se os professores das outras disciplinas não agem (dentro da escola, logicamente, o que o professor faz fora da escola é responsabilidade exclusiva do professor) de acordo com os preceitos defendidos nessas disciplinas.

Todas as disciplinas são ‘conteudistas’, todas elas possuem fatos, símbolos, teorias, processos e valores inerentes. E nem tem como ser de outro modo. Uma disciplina sem conteúdos é uma disciplina vazia. Entendo que quando uma mãe diz que “meu filho não aprende matérias ‘conteudistas’. Ele não é muito bom em decorar.”, ela não tem em mente essas questões, mas isso já é assunto para um outro post.

Artigo traduzido: Uma estrutura para o Ácido desoxirribonucleico

Prolegômeno

Caros amigos que me honram com sua presença nesse humilde blog, pretendo disponibilizar uma vez por mês um artigo científico de grande importância nas Ciências – especialmente na Biologia – traduzido (ou ao menos era isso que pretendia, mas como dá muito trabalho esse negócio de tradução creio que esses artigos só darão o ar de sua graça bimestralmente). Sei que muitos leem em inglês,  mas como o blog é de Biologia e Educação é interessante poder dispor do texto em português para análise em sala de aula. Seja no Ensino Médio ou Superior.

O artigo abaixo, controvérsias a parte (as querelas envolvendo Watson, Crick, Franklin e Wilkson serão tema de uma futura nota), inaugurou a área de Biologia Molecular e mostrou mais uma vez que de nada adianta dados sem uma teoria que os suportem. Além de tudo, o conhecimento necessário para entender boa parte do que está escrito ali não é extremamente específico de uma área e o texto em si é bem elegante (espero não ter estragado essa elegância com minha rude tradução).

Para quem tiver curiosidade de ler o artigo em inglês, a Nature mantém uma página em homenagem aos 50 anos do DNA que pode ser acessada por qualquer pessoa http://www.nature.com/nature/dna50/archive.html

Para quem tiver maior interesse em se aprofundar especificamente no artigo de Watson e Crick, há uma site (em inglês) que traz vários comentários ao artigo. http://www.exploratorium.edu/origins/coldspring/ideas/printit.html

Isso era tudo, obrigado e boa leitura.

Uma estrutura para o Ácido Desoxiribonucleico

J. D. Watson and F. H. C. Crick

25 de Abril de 1953, Nature, 171, 737-738

 Queremos sugerir uma estrutura para o sal de ácido desoxirribonucleico (D.N.A.). Esta estrutura tem características inovadoras que são de considerável interesse biológico.

Uma estrutura do ácido nucleico já foi proposta por Pauling e Corey1. Eles gentilmente nos disponibilizaram seu manuscrito antes da publicação. Seu modelo consiste de três cadeias interligadas/entrelaçadas, com os fosfatos voltados para o eixo da molécula e as bases [nitrogenadas] nas suas extremidades. Em nossa opinião, essa estrutura é insatisfatória por duas razões:

1ª. Cremos que o material analisado por difração de raios-X é o sal, não o ácido livre [em meio aquoso]. Sem a presença dos íons H+ não fica claro quais forças [de interação intermolecular] mantém juntas essa estrutura, principalmente devido à alta concentração de carga negativa no eixo da molécula devido aos fosfatos, que tenderiam a se repelir.

2ª. Alguns das distâncias [das interações intermoleculares] de van der Waals parecem ser muito pequenas.

Outra estrutura com três cadeias foi sugerida por Fraser (no prelo). No seu modelo, os fosfatos estão voltados para o exterior da molécula e as bases [nitrogenadas] para o seu interior, [sendo essas bases] ligadas entre si por pontes de hidrogênio. Essa estrutura como descrito é bastante mal definida e por essa razão não a comentamos em detalhes.

Queremos apresentar uma estrutura radicalmente diferente para o sal do ácido desoxirribonucleico. Esta estrutura possui duas cadeias helicoidais enroladas em torno de um mesmo eixo (veja diagrama). Utilizamos os pressupostos químicos habituais, ou seja, que cada cadeia consiste em grupos de fosfato de diéster ligados a resíduos de beta-D-deoxyribofuranose nas posições 3′, 5′. As duas cadeias (mas não suas bases) são perpendiculares ao eixo da molécula. Ambas são destramente direcionadas, embora estejam uma “de cabeça para baixo” em relação à outra. Cada cadeia lembra vagamente o modelo nº 1 de Furberg2; isto é, as bases estão voltadas para o interior da hélice e os fosfatos voltados para o lado de fora da mesma.  A configuração do açúcar e os átomos perto dele seguem a “configuração padrão” de Furberg, o açúcar aproximadamente perpendicular à base em que está ligado. Há um resíduo em cada 3.4A [angstrom, equivalente a 0,1 nm] na direção Z. Pressupomos que haja um ângulo de 36 ° entre os resíduos adjacentes da mesma cadeia, então, em cada uma das cadeias, [partindo-se de um ponto qualquer da cadeia,] uma nova hélice é observada após se passar por 10 resíduos [de açúcar], ou seja, [a distância entre as hélices é de] 34A. A distância de um átomo de fósforo ao eixo da molécula é de 10A. Como os fosfatos estão virados para a face externa, os cátions têm acesso fácil a eles.

DNA

Essa figura é simplesmente esquemática. As duas fitas simbolizam as duas cadeias de fosfato-açúcar e as hastes horizontais as pares de bases que mantém a cadeia junta. A linha vertical assinala o eixo da molécula. Essa figura é simplesmente esquemática. As duas fitas simbolizam as duas cadeias de fosfato-açúcar e as hastes horizontais as pares de bases que mantém a cadeia junta. A linha vertical assinala o eixo da molécula.

A molécula é aberta, e o seu teor de água é bastante alto. É de se esperar que em uma menor quantidade de água haja uma inclinação das bases para que a estrutura torne-se mais compacta.

A nova característica da estrutura é o modo pela qual as duas cadeias são mantidos juntos pelas bases de purina e de pirimidina. As bases são perpendiculares ao eixo da molécula e estão unidas aos pares, a base de uma cadeia está ligada por pontes de hidrogênio a base da outra cadeia, de modo que as duas [cadeias]se emparelhem lado a lado e possuam valores idênticos de coordenada Z. Um dos pares tem que ser uma purina e o outro uma pirimidina para que a ligação ocorra. As pontes de hidrogénio são feitas assim: posição 1 da purina com posição 1 da pirimidina, posição 6 da purina com posição 6 da pirimidina.

Se assumirmos que as bases só ocorrem na molécula em suas formas tautoméricas mais estáveis (isto é, a configuração ceto em maior quantidade que a configurações enol) verifica-se que apenas pares específicos de bases podem ligar-se em conjunto. Estes pares são: adenina (purina) com timina (pirimidina), e guanina (purina) com citosina (pirimidina).

Em outras palavras, se uma adenina forma um membro do par, o outro membro deve ser timina; similarmente para guanina e citosina. A sequência de bases em uma cadeia não parece ser limitada de qualquer forma. No entanto, se apenas pares específicos de bases podem ser formadas, segue-se que, se a sequência de bases de uma cadeia é determinada, então a sequência da outra cadeia é automaticamente determinada.

Determinou-se experimentalmente3,4 que a relação entre as quantidades de adenina para timina e a relação [entre as quantidades] de guanina para citosina, são sempre muito próximas de um no ácido desoxirribonucleico.

É provavelmente impossível construir essa estrutura [em dupla hélice] com uma ribose de açúcar em vez de desoxirribose, o átomo de oxigênio extra ficaria muito perto para uma [interação intermolecular] de van der Waals.

O dados da [difração de] raio-x previamente publicados5,6 para o ácido desoxirribonucleico são insuficientes para um teste rigoroso de nosso modelo. Tanto quanto podemos afirmar, [nosso modelo] é mais ou menos compatível com os dados experimentais, mas deve ser considerada como não provado até que tenha sido verificada contra os resultados mais exatos. Alguns destes [dados mais exatos] são fornecidos nos artigos a seguir (O artigo de Watson e Crick foi publicado conjuntamente com os artigos de Wilkins, Stokes e Wilson e o de Franklin e Gosling e são a esses dois artigos que eles se referem com os dados mais precisos). Não estávamos cientes dos detalhes dos resultados apresentados nesses artigos quando criamos o nosso modelo, que se baseia principalmente, embora não inteiramente, em dados experimentais publicados e dados estereoquímicos.

Percebemos que o emparelhamento específico que postulamos imediatamente sugere um possível mecanismo de cópia do material genético.

Informações completas sobre nosso modelo, incluindo as condições assumidas para construí-la, juntamente com um conjunto de coordenadas [de posição] dos átomos, será publicado posteriormente.

Somos muito gratos ao Dr. Jerry Donohue pelo aconselhamento constante e críticas, especialmente [nos tópicos] de distâncias interatômicas. Também nos sentimos estimulados pelo conhecimento, de forma geral, dos dados experimentais e ideias ainda não publicados do Dr. M. H. F. Wilkins, Dr. R. E. Franklin e seus colaboradores do King College, em Londres. Um de nós (J. M. W.) possui financiamento por bolsa da Fundação Nacional para a paralisia infantil.

Referências Bibliográficas:

1 Pauling, L., and Corey, R. B., Nature, 171, 346 (1953); Proc. U.S. Nat. Acad. Sci., 39, 84 (1953).

2 Furberg, S., Acta Chem. Scand., 6, 634 (1952).

3 Chargaff, E., for references see Zamenhof, S., Brawerman, G., and Chargaff, E., Biochim. et Biophys. Acta, 9, 402 (1952).

4 Wyatt, G. R., J. Gen. Physiol., 36, 201 (1952).

5 Astbury, W. T., Symp. Soc. Exp. Biol. 1, Nucleic Acid, 66 (Camb. Univ. Press, 1947).

6 Wilkins, M. H. F., and Randall, J. T., Biochim. et Biophys. Acta, 10, 192 (1953).

Por que essa ênfase tão grande na reciclagem?

Considerando a importância da reciclagem de nossos resíduos e entendendo a finitude das reservas do nosso planeta, a pergunta que dá título a esse artigo parece desnecessária. Ledo engano. A importância da reciclagem é inquestionável, mas não é o processo em si que questiono.

Lembro que nos idos de 2000, quando comecei a me preocupar com as questões ambientais, era absurdamente difícil encontrar produtos reciclados. Hoje temos toda sorte de materiais com algum componente reciclado: papel, caneta, latas de alumínio, sandálias, garrafas PET etcoetera. A Coca-cola, por exemplo, faz questão de por nos seus rótulos e em seu site que recicla aproximadamente 55% das garrafas PET que produz. A GooC usa – e também faz questão de deixar bem claro na sua propaganda e logo na entrada de seu site – pneus velhos como matéria-prima.

Processo de fabricação de uma sandália Gooc
Imagem retirada da página inicial do site da Gooc. Mostra como suas sandálias são produzidas. Pelo fluxograma dá para se pensar que eles usam pneus velhos e consumidores conscientes triturados para fazer os calçados.

Bom, agora você deve estar se perguntando: “Não estou entendendo qual é o problema. Reciclar não é algo bom?”. Independente de ser bom ou ruim, reciclar é necessário se quisermos prolongar a existência da espécie humana e tornar o mundo mais agradável para nossos filhos e netos. É importante que compremos – sempre que possível – produtos reciclados e é muito bacana que cada vez mais pessoas façam escolhas de compra com base na responsabilidade ambiental.

O problema é que tem muita gente bem intencionada – mas, infelizmente, não tão bem informada – que pensa que apenas comprando produtos reciclados está fazendo sua parte. Não é bem assim. Antes de se comprar algo, mesmo que reciclado, deve-se primeiro pensar se você possui uma real necessidade daquele bem. É meus caros, o primeiro passo é reduzir, comprar por necessidade, não por impulso. Se for realmente necessário comprar e há dois produtos similares, dê preferência ao que tem menos embalagens, usa menos materiais ou que possua componentes menos danosos ao ambiente. Melhor que comprar papel reciclado é imprimir o mínimo de folhas possíveis. Reduzir é MUITO mais importante que reciclar!

Reutilizar também é mais importante que reciclar. Agora você já tem uma desculpa para só ter copo de geléia de mocotó e usar pote de sorvete como depósito de comida. “Pobre não, consciente!”. A reciclagem deve acontecer apenas quando não é mais possível a redução ou a reutilização do produto.

Talvez agora você perceba o preâmbulo elíptico na pergunta que dá mote ao nosso texto: Se reduzir e reutilizar são atitudes mais importantes, “por que essa ênfase tão grande na reciclagem?”. Simples [Che Guevara on] El sistema capitalista [Che Guevara off].

Não tenho a menor intenção de julgar os méritos e deméritos do capitalismo, muito menos o impingir a culpa de todas as mazelas do mundo, mas temos que admitir que um sistema baseado no capital, na circulação de mercadorias, não vai dar muita ênfase na redução e reutilização.

Vejamos, a mesma Coca-cola que se orgulha de reciclar garrafas PET, praticamente exterminou a venda do produto no casco de vidro retornável de 1,5L, que era o mais comum antigamente, pois era mais complicado vender o produto nessa embalagem nas grandes redes de supermercados (você encontra para vender atualmente, mas é bem mais difícil que a PET de 2 litros). Você imagina a Coca-cola, que usa a responsabilidade ecológica como marketing, comemorando decréscimo de vendas? Ou aquela supermodelo brasileira engajada em causas ambientais exultante por deixar de fazer desfiles para reduzir o gasto de matérias-primas? Lógico que não!

Essa mesma lógica vale para a maioria das empresas. Elas não querem uma redução no consumo ou uma reutilização dos bens. Seu desejo é, e sempre foi, o lucro. Como a nova onda é o eco-marketing e reutilização e redução não enche os bolsos de ninguém, enfatiza-se a reciclagem e se entrega para o consumidor um produto envolto numa aura ecologicamente correta.